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Martim Soares Moreno

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Martim Soares Moreno, considerado o fundador do Ceará
Martim Soares Moreno

Monumento ao Capitão Mor do Ceará Martim Soares Moreno
Considerado o fundador do Estado do Ceará, Martim Soares Moreno nasceu em Santiago do Cacem, em Portugal, no ano de 1585.
Chegou ao Brasil em 1603 e ao Ceará, pela primeira vez, em 1605, como ajudante do açoriano Pero Coelho de Souza.
Em 20 de janeiro de 1612, retornou ao Ceará e tomou posse oficial da região, no local denominado Rio Siará, hoje, Barra do Ceará. Ali construiu um fortim, ao qual denominou de Forte SãoSebastião.
Integrado aos índios, tornou-se ele próprio um nativo, pintando-se com as cores do jenipapo e irmanando-se aos silvícolas em suas lides guerreiras.
A partir de 1613, Martim Soares Moreno participou ativamente do combate aos invasores franceses no Maranhão.
De retorno a Portugal, em 1619 foi nomeado o primeiro Capitão-Mor do Ceará. Aqui permaneceu até 1631, quando partiu para Pernambuco, onde se destacou nas lutas contra os holandeses, alcançando o título de Mestre-de-Campo.
Em 1993, o Exército Brasileiro homenageou-o, emprestando à 10ª Região Militar a denominação histórica de Região Martim Soares Moreno.

Fonte: 10rm

Martim Soares Moreno, o Fundador do Ceará
 
Poucas pessoas vão se lembrar desta data: 20 de janeiro de 1612. Foi há exatos 400 anos que o soldado português, Martim Soares Moreno, fundou o Forte de São Sebastião na Barra do Ceará, no lado direito do estuário do rio Ceará. Foi construído naquele lugar para defender a costa do Brasil contra o inimigo número um, os piratas franceses, que devem ter tido a proteção do rei francês, Luiz XIII.

Os caminhos de Martim

Martim veio do Forte dos Reis Magos no Rio Grande do Norte, ponto de apoio do jovem soldado, nascido em 1586 em Portugal e levado a Pernambuco por seu tio, o sargento-mor Diogo de Campos Moreno, autor da Jornada do Maranhão (Peixoto, 1941: 12). Já em 1611 foi nomeado capitão e, mais tarde, capitão-mor do Siará ou Seara, nome originado provavelmente dos índios tabajaras ou potiguaras cuja língua (tupi-) guarani o jovem Martim aprendeu durante e depois da primeira expedição a esta costa, na qual participou acompanhando o fidalgo Pero Coelho de Sousa, em 1603, para fundar um forte e uma cidade na foz do Rio Jaguaribe, tentativa fracassada.

Mais tarde, nas lutas contra os holandeses em Recife, Martim Soares foi conhecido como sendo o capitão português que melhor entendeu os índios e servia de interprete, pois em junho de 1631, veio com 200 deles para entrar nos combates falando fluentemente a língua deles, como relata Brito Freyre (1675: 204).

Realidade e ficção

O escritor José de Alencar encontrou a explicação para a relação do militar português com os índios e para sua maneira de lutar com eles em sua paixão por uma índia, filha dos tabajaras da Serra de Ibiapaba, de nome Iracema. O amor e a morte da "virgem dos lábios de mel" foram tão bem descritos que todos acreditam na sua realidade histórica.

Sem dúvida, Iracema é a criação mais poética do escritor cearense. O próprio Alencar criou este nome indígena, Iracema, em que Afrânio Peixoto, em 1923, descobriu um anagrama para "America". A relação, no entanto, não passou de coincidência, pois nos seus cadernos de anotações Alencar vacila ainda entre "Aracema" e "Iracema".

Nestes mesmos cadernos, o autor fez uma lista de algumas palavras indígenas, entre elas "Mel - Ira" e "tembê - lábio", encontrados no Diccionario da Lingua Tupy, 1858, de Gonçalves Dentro do possível, o que se supõe é que tenha usado tais referências para chegar à expressão "Iracema - lábios de mel", inspirado também, possivelmente, em contraste com o nome histórico do ciumento e feroz chefe dos tabajaras, Irapuã, "Mel Redondo".

Da mesma maneira, Alencar fez a composição do nome do filho de Iracema e Martim, o suposto primeiro cearense: "Moacir - saído da dor".

O subtítulo "Lenda do Ceará" não poderia ser mais adequado: Martim, Poti e Iracema caminham muitas milhas através do Ceará, apenas para explicar nomes curiosos aos ouvidos portugueses, como Ibiapaba, Acaraú, Uruburetama, Mundaú, Quixeramobim, Maranguape, Aratanha, Pirapora, Porangaba, Pacoti, Mucuripe e sobretudo Ceará - explicado por Alencar como "canto da jandaia".

Alencar criou esta ave como companheira alegre de Iracema. Ao final, também ela lhe acompanha, lamentando a sua morte. O túmulo - fictício - de Iracema é o marco ao lado do qual Martim, oito anos mais tarde, constrói o forte, inaugurado em 1612, no dia 20 de janeiro, dia de São Sebastião. Já no tempo de Martim a capitania e o rio tinham o nome de Seará (em holandês "Siara").

"Este dito Seara é um Rio que entrão nelle embarcações de 30 até 40 toneladas está em 2 graus e 2 terços da parte do sul" (Moreno, em Studart, 1903: 195; em Peixoto, 1941: 54). Ao lado do forte foi construída uma capela e os índios fundaram uma aldeia, o primeiro núcleo da futura cidade de Fortaleza. Ao todo, o Ceará estava fundado. Com sua "Lenda do Ceará, Alencar ofereceu uma tão desconhecida profundidade histórica à sua terra natal que, no ano da publicação de Iracema, em 1865, estranhou muito a reação dos sujeitos do tempo presente. Como lamenta Alencar, houve silêncio total. Só Machado de Assis logo reconheceu neste texto a "obra-prima do futuro". Apenas 100 anos mais tarde, em 1965, a lenda de José de Alencar saiu em Fortaleza, em edição comemorativa da Imprensa Universitária.

Estátuas de Iracema

No mesmo ano de 1965 foi instalado na Praia de Mucuripe o grande monumento de Corbiniano Lins: Iracema, Martim e o pequeno Moacir com o cachorro Japi, todos em cima da jangada de pedra que iria leva-los para o Rio Grande do Norte. A prefeitura recusou o outro monumento, a "Iracema Guardiã" de ferro, feita por Zenon Barreto, instalado só em 1996 na Praia de Iracema - hoje a preferida pelo marketing da Cidade como símbolo de Iracema, e de Fortaleza.

Forte de São Sebastião

"No anno de 1612 fiz um forte de madeira com suas guaritas e casas de soldados, dentro, e sua Ermida onde se diz Missa, e onde estão 20 soldados alli deixei já 10 ou 11 cazados com Indias e Mamelucas com muitos filhos" (Moreno, em Studart, 197; em Peixoto, 56).

O forte fundado por Martim Soares Moreno foi crescendo, conforme as ordens do novo governador dos holandeses em Recife, o Conde João Maurício de Nassau. Já em 1637, o major Joris Garstmann conquistou o forte, e neste estado foi desenhado pelo pintor de Nassau, Frans Post, como se vê no grande livro do historiador Gaspar Barléus, de 1647, com o título "Siara" (Barléus, 1660: 260?).

Nassau deixou o Brasil em 1644, e foi neste ano que os índios do Ceará, sob o comando de "Algodão", tomaram o forte, incendiaram-no, e só três soldados se salvaram. Os holandeses não desistiram. Sob o comando de Mathias Beck, em 1649 foi construído um novo forte, não longe deste primeiro, à beira de pequeno rio Marajaitiba ou Pajeús. Foi um forte grande, de pedras, à maneira dos holandeses, como se vê também no Forte Orange na Ilha de Itamaracá, perto de Recife, ou no assim chamado "Forte das Cinco Pontas" de Recife.

Este forte recebeu o nome do governador holandês de Recife, "Forte Schoonenborch", e foi entregue aos portugueses em 1654 quando os holandeses deixaram o Brasil, vencidos no Recife depois de várias batalhas.

Fundação de Fortaleza

Era Aquiraz, desde 1699, a primeira capital do Ceará. Tal título permaneceu até 1726, quando o povoado formado em torno do forte de Mathias Beck, que contava com proteção militar, foi elevado ` nova Capital do Ceará, com o nome de Vila da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Nos tempos de Moreno como capitão-mor, o Ceará era administrado por Maranhão. Depois, a pedido de Moreno foi juntado a Pernambuco, e só em 1799 se desvinculou dele.

Patrono do Forte

Aliás, o patrono da 10ª Região do Exército Brasileiro, dono do Forte de Nossa Senhora de Assunção, é Martim Soares Moreno. No pátio se vê a estatua do soldado português, já em idade avançada.

Em abril de 1648, ele voltou à sua cidade natal, Santiago do Cacém (cf. António Abreu Freire), depois de 45 anos de serviço militar, pobre e sem deixar filhos conhecidos no Brasil. Graças a linguagem poética da "Lenda do Ceará", de José de Alencar, no entanto, tornou-se uma figura literária e mítica no Brasil, apesar de desconhecido em Portugal. (Cf. o blog do Prof. Freire, que, entre os anos de 2007 e 2008 refez os caminhos do Padre Antônio Vieira).

INGRID SCHWAMBORN
ESPECIAL PARA O CADERNO 3*
Ingrid Schwamborn é historiadora

Fonte: Diário do Nordeste - 20/1/2012

A história de um aniversário

Há 400 anos, o militar português Martim Soares Moreno incorporava o mito de herói fundador do Ceará

Hoje o Ceará completa quatro séculos de história "oficial" - escrita, datada e registrada segundo uma concepção histórica eurocentrista. A efeméride relaciona-se à atuação dos primeiros exploradores lusos na região, permeada sobretudo por conflitos com as populações indígenas aqui já estabelecidas. Mais especificamente, revela a data de aniversário de 400 anos de construção do Forte de São Sebastião, erguido pelo militar português Martim Soares Moreno e finalizado em 20 de janeiro de 1612, na área onde hoje se localiza a Barra do Ceará.

A prática de estabelecer episódios como "marcos", como pontos-chaves da trajetória de determinados objetos, permanece inevitável mesmo sob a égide dos novos paradigmas dos estudos históricos - fundamentados em olhares mais amplos e integrados, em detrimento das abordagens tradicionais orientadas especialmente pela eleição de datas, fatos e personagens.

No caso do Forte, trata-se de um "marco" que evoca a figura de Moreno, imortalizado como espécie de "fundador" do Ceará. Tal construção simbólica foi viabilizada, por exemplo, por obras como "Iracema" (1865), do escritor José de Alencar, na qual o português faz par com a famosa "virgem dos lábios de mel". A união representaria a "conciliação" entre o nativo e o europeu colonizador e, em última análise, a própria formação do povo brasileiro.

O Forte foi erguido por Moreno durante expedição para garantir em definitivo o processo de colonização do território cearense, por parte da Coroa Lusa. Antes, o militar já havia participado da expedição do também português Pero Coelho, primeiro explorador a empreender tentativa de ocupação do Siará Grande (região correspondente às capitanias do Rio Grande, Ceará e Maranhão).

"De acordo com Barão de Studart, Pero teria nomeado a terra de Nova Luzitânia, e de Nova Lisboa a povoação que fundou, nas margens do Rio Ceará. Esse estabelecimento teria ocorrido em 1604, quando Pero voltava da Serra da Ibiapaba, depois dos conflitos com índios e franceses e da tentativa de alguns dos seus subordinados de assassiná-lo", explica Mário Martins Júnior, professor assistente na UFC, cotutor do Programa de Educação Tutorial (PET-História) e doutorando da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

A empreitada de Coelho, na verdade, fazia parte de uma operação maior, chamada Jornada do Maranhão, cujo objetivo era retomar as terras daquela capitania, então dominadas pelos franceses. Na ocasião, Coelho fundou aqui o Forte de São Tiago, no mesmo local do sucessor São Sebastião. "De fato, no final do XVII, os franceses estavam aliançados com índios da Ibiapaba e além, nas terras do Maranhão. São justamente esses franceses que a Jornada de Pero combaterá", ressalta Martins.

Segundo o professor, seu trabalho segue uma linha de estudo que tenta perceber o Siará como um ponto dentro de uma rede bem mais ampla, multicontinental, a do Império Luso no início do século XVII, "cujo contexto de desenvolvimento era o de disputas marítimas, de conflitos em alto-mar, da ação de corsários, entre outros", observa Martins.

"As terras do norte eram fundamentais nesse empreendimento de domínio, de disputa de poder. Conquistar, ocupar e colonizar efetivamente essas áreas era uma tarefa árdua para a Coroa e alguns homens daqui percebiam com bastante alerta essa questão", esclarece. Em sua tese, o professor investiga também as ações de Pero Coelho no processo de conquista do Siará Grande. Segundo ele, Pero foi o primeiro Capitão-mor, mas acabou sendo rechaçado pela Coroa por suas ações de combate e de escravização dos índios com os quais teve contato na Ibiapaba. "A Coroa lusitana assumiu posturas diferentes nos diversos contextos de colonização. Até a primeira metade do século XVII observo uma política mais amistosa com os índios, que poderia significar colonização mais rápido. Na dificuldade de enviar colonos para estas terras, de acordo com Joaquim Veríssimo, aldeamentos poderiam representar uma forma profícua de colonização sem grandes custos", pontua Mário Martins.

Segundo o professor, essa foi uma política posta em prática por vários Governadores Gerais, como Francisco de Sousa, Diogo Botelho e Diogo de Meneses. "Claro que havia a possibilidade de escravizar os índios pela chamada ´guerra justa´, mas a legislação era dúbia e os governadores tinham interesse em frear os desmandos dos capitães", explica.

Imagem

"No caso de Pero, Botelho mandou aldear os índios e suspender e venda dos mesmos até que tudo fosse averiguado. Foi aberta uma devassa contra Pero e ele foi inocentado pelos principais homens que exerciam cargos administrativos no Brasil. Contudo, Botelho recorreu ao próprio Rei e conseguiu com que Pero saísse derrotado na questão. Os índios foram encaminhados à Ibiapaba sob os cuidados dos padres Francisco Pinto e Luís Figueira", complementa o professor.

Moreno, por outro lado, conseguiu sustentar o prestígio e a imagem. "Ambos foram ovacionados inicialmente. Para que Pero pudesse partir em sua Jornada, ele solicitou autorização do Governador Geral, que, em reunião com alguns dos homens mais importantes do Reino, decidiu nomeá-lo Capitão-mor da Jornada e do Siará. A ele foram concedidos direitos e deveres para que conduzisse a empreitada, mas somente porque correspondia às idealizações projetadas pelos outros homens", adverte Martins.

"Tal processo foi semelhante em Martim Soares Moreno, também agraciado com a patente de Capitão-mor do Siará. Contudo, conseguiu sustentar essa imagem projetada sobre ele, enquanto Pero não. As ações de Martim, pelo o que ele mesmo deixou escrito, estariam subordinadas aos interesses da Coroa, enquanto Pero, conforme aponta Botelho, teria agido por interesse próprio", conclui o pesquisador.

Assim, por essa razão, bem como pelas possíveis desavenças de Pero com o Governador Geral, sua imagem idealizada de colonizador e desbravador acabou minguando.

FIQUE POR DENTRO

Para além de fatos e datas

Segundo Mário Martins, a construção de um olhar mais amplo, mais integrado, dentro dos estudos históricos é algo recente no campo da História do Ceará. "Trabalhos como os de Rafael Ricarte da Silva, Gabriel Parente Nogueira e Almir Leal de Oliveira, por exemplo, foram escritos recentemente nessa perspectiva e estão publicados no livro ´Ceará: economia, política e sociedade - Séculos XVII e XVIII´, de nossa organização", explica.

Nesse sentido, o professor aponta ainda o livro de José Eudes Gomes (As milícias d´El Rey), que caracteriza como emblemático para a compreensão do Estado do Ceará. Fora do Estado, porém, o pesquisador esclarece que a situação é diferente.

"Trabalhos publicados por estudiosos do Rio de Janeiro, em oposição a uma historiografia paulista, tentam abordar essa perspectiva, juntamente com historiadores portugueses, há mais de uma década. Penso que o principal desafio é sair dessa posição tradicional de oposição de Metrópole versus Colônia e com isso perceber de forma mais profícua as ligações existentes dentro do Império. Meu desafio é pensar isso em termos de gênero, de constituição de masculinidades. Pero Coelho e Martim Soarem são dois expoentes em minha pesquisa", esclarece o historiador.

Especificamente sobre o período de colonização do Ceará, Martins aponta um problema concernente à escrita da história (historiografia), isto é, uma ausência de interpretação histórica sobre esse período.

"Geralmente o que observamos é um arrolar de fatos e datas, e uma disputa para saber aquela que seria a mais correta, com pouco ou nenhuma interpretação mais detida", critica o pesquisador. "O ofício do historiador não consiste em simples acúmulo de informações. É necessário perceber suas ligações, interpretá-las, desvelar seus significados, entre outros aspectos", adverte.

ADRIANA MARTINS
REPÓRTER

Fonte: Diário do Nordeste - 20/1/2012

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